Thursday, July 23, 2009

Entrevista com Scott Tom, do Estúdio Laika


Há 12 anos que Scott Tom trabalha com todos os aspectos da fabricação de bonecos e cenários para a animação stop-motion. Coordenou departamentos de fabricação de bonecos em programas de TV e comerciais, como The PJ's, Gary & Mike e Robot Chicken. Em Coraline, foi chefe de fabricação de bonecos. Alguns minutos antes de sua apresentação especial do filme, ontem no Memorial, Scott Tom nos concedeu uma rápida entrevista, falando um pouco dos detalhes da produção e do que está achando do festival.

Qual a importância de se manter a estética do stop motion em um filme como Coraline, mesmo com tantos recursos em 3D, computação gráfica?

Tom - Nossa preocupação estética em Coraline foi a de deixar aquele mundo muito táctil. A Animação 3D gerada por computação pode parecer muito "etérea", enquanto o o stop-motion é mais "mundo real". Tudo que se vê na imagem realmente foi feito: os detalhes dos bonecos, o figurino, os ambientes. Acho que tudo isso atravessa a tela, é mais caloroso, tem mais apelo com o público, de uma forma que animação gerada inteiramente por computador muitas vezes não tem. Um boneco fabricado e fotografado nos dá uma sensação real de profundidade e tridimensionalidade.

A plasticidade visual de Coraline chega até mesmo aos cabelos dos personagens, onde fios eram inseridos um a um nos bonecos, para garantir uma movimentação realista.

Como foi a concepção visual dos personagens de Coraline? Eles foram criados a partir do zero por sua equipe, ou vocês tiveram alguma referência visual do diretor Henry Selick?

Tom - A inspiração visual para Coraline foi indepentente do que foi criado para o livro. Todos os personagens foram concebidos de acordo com a concepção de Henry, sua visão de como os bonecos deveriam ser, os cenários, etc. Para isso, ele trabalhou com diferentes ilustradores, que o ajudaram a se comunicar visualmente com quem fabricava os bonecos, com quem construía os cenários. Um dos ilustradores foi Tadahiro Uesugi, que teve uma participação muito grande na identidade visual dos personagens. Mas Tadahiro não foi o único na criação do visual do que veio a se tornar o mundo de Coraline. Nós precisávamos de mais ilustradores envolvidos, e o que se vê na tela é o resultado do esforço de uma equipe em dar vida ao que Henry tinha em mente. Foram muitas tentativas, nós esculpimos várias vezes inúmeras versões dos bonecos. Tínhamos, por exemplo, uma figurinista para os personagens. Hoje estamos satisfeitos em afirmar que nenhuma outra animação stop-motion mostrou tantas "trocas de roupa" quanto Coraline, e isso foi implementado para que Henry conseguisse mostrar o passar do tempo na história. Tudo isso deu um caráter único para a animação.
Na apresentação, Scott exibiu uma das ilustrações de Tadahiro Uesugi,

que ajudaram na concepção do Pink Palace, em Coraline.



Voce diz que o as animações de Ray Harryhausen é uma grande influência no seu trabalho, mas talvez muita gente não saiba exatamente quem ele é. Que filmes em stop motion você recomendaria para quem quer conhecer mais sobre essa técnica?

Tom - Ray é como se fosse "o pai do stop motion"- acho que todos na indústria pensam assim. Certamente ele não foi o primeiro a usar a técnica, mas foi aquele que a trnuxe para o mainstream. E não eram filmes estritamente de stop-motion, eram efeitos especiais. Eu era bastante jovem quando assisti a Fúria de Titãs (1981), um filme em que alguns personagens eram deuses, e todos os efeitos foram criados por Ray. Olhando para trás, ele criou muita coisa pioneira em stop-motion. Outro filme que eu vi quando jovem e me influenciou bastante foi O estranho mundo de Jack (1993), do próprio Henry Selick, que muitos devem ter visto, um grande sucesso. Esses dois são filmes bem fáceis de se encontrar por aí, e funcionam muito bem como apresentação ao stop-motion. Mas essa técnica está em toda parte, se olharmos em programas infantis, comerciais, sempre encontramos exemplos.

E o que você tem achado do Anima Mundi? Como foi a receptividade do público com a sua apresentação do making of de Coraline com Mike Cachuela?

Tom - Bem, eu me sinto mal em dizer que não tinha ouvido falar do Anima Mundi até um ano atrás, e meus colegas sempre falavam: "você precisa ver como é". E é mesmo fantástico. Eu tive a felicidade de vir aqui com Coraline e conversar com esse público, e fiquei impressionado com a forma com que se interessavam. Nos Estados Unidos, nós não temos um festival de animação como esse, não com uma estrutura tão grande assim. Se faz muita animação nos Estados Unidos, mas o interesse do público não é como o daqui. Gostaríamos que fosse, porque é inspirador para a gente que trabalha duro para fazer tudo dar certo. É um processo muito lento fazer animação, e chegar em um lugar onde as pessoas querem muito saber como foi feito, que nos dão esse esse tipo de resposta, vale muito a pena.

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